Sonhador, engenheiro, realizador, apaixonado por carros e agora até arquiteto, Horacio Pagani está de casa nova. Assim como seus carros, toda feita por ele. E como seus carros, um lugar especial.

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Era uma sexta-feira 13 e o fotógrafo Richard Pardon e eu, protagonizamos uma cena de pastelão, escorregando no gelo quando saímos do hotel, mau presságio. Certamente este não seria o dia certo para dirigir um carro de R$ 8,250 milhões, o Pagani Huayra BC. Fomos avisados que o carro ‘poderia estar disponível’ para uma avaliação na fábrica. Quando chegamos, fomos informados que ele ‘não estava disponível’. Não reclamamos nem perguntamos o por quê.

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Na verdade, não viemos aqui para testar carro, mas para visitarmos a nova fábrica da Pagani, que Horacio Pagani construiu a apenas dois minutos da antiga instalação em San Cesario sul Panaro, próximo de Modena, na Itália. Ele é um engenheiro mecânico, não um arquiteto, mas desenhou tudo, assim como faz com seus carros.

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É uma bela fábrica, mas num lugar não tão belo. Apesar de ter vista para um trecho de floresta, é cercada por construções industriais. O dia frio e cinzento no norte da Itália também não ajuda. Quando pensamos num esportivo italiano, automaticamente o projetamos numa estrada alpina, sob o sol num dia brilhante. De fato eles são feitos para isso, porém, são desenhados, construídos e fabricados em lugares e dias como estes.

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Em matérias como essa, geralmente levamos nossos leitores a fábricas onde o portão está fechado. Aqui não. Apesar do valor destas raridades fabricadas aqui, Horacio não liga muito para o acesso. Ele não se esquece de quando foi um jovem apaixonado e entusiasmado na longínqua Argentina, ávido para conhecer uma fábrica como esta. Hoje, por 35 Euros, você pode reservar um ‘tour’ e visitar tudo o que deseja conhecer.

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Mas se preferir, pode vir conosco, guiados pelo homem cujo nome está escrito na placa de entrada. O último dos ‘garagistas’ fabricantes de esportivos aterrorizantes atravessa a porta logo depois de nós, e aparentemente não se desequilibra e cai no chão como nós ridiculamente caímos mais cedo sobre o gelo. Existe no ar a impressão de que uma pessoa VIP (Very Important Person) está no recinto, pois as conversas cessam quando ele passa, atraindo olhares. Horacio é um polo de atenção, mas não se comporta como uma das figuras mais importantes do mundo dos supercarros. Sua empresa não adquiriu (ainda) a fama ou a escala de sucesso de um Enzo Ferrari ou Ferruccio Lamborghini, mas poucos são capazes de projetar e construir um supercarro praticamente sem ajuda. Horacio é melhor comparado a engenheiros como Gordon Murray ou Ettore Bugatti, e ditadores do bem como estes, tendem a produzir os melhores carros.

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Ele é baixinho, uma figura avuncular, está usando uma jaqueta Pagani com zíper (puxador no formato de seu logotipo de quatro escapes), jeans roxo e tênis Diadora. Seus cabelos já estão bem grisalhos e penteados para trás, e seus olhos atentos veem tudo através de óculos de armação fina, que brilham com a iluminação da sala onde tomamos um café, iniciando nossa conversa antes da visita. Horacio chama seu filho Leonardo (que tem esse nome por causa do Da Vinci), que supervisionou a construção da fábrica.

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A história do Horacio se confunde com muitas outras. Aos 20 anos, ainda na Argentina, ele projetou e construiu seu próprio carro de Fórmula 2. Porém, as condições de trabalho, de ganho e de mercado, limitavam-se a fazer projetos de adaptação de motor-homes. Assim, em 1983, sem dinheiro, mas com uma carta de recomendação assinada por Juan Manoel Fangio, ele desembarcou na Itália (terra de seus ancestrais), onde conseguiu um emprego na Lamborghini.

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Seu crescimento na empresa foi meteórico, mas sempre limitado pelo empregador. Seu conceito Countach Evoluzione foi um dos primeiros a usar uma célula de fibra de carbono, que cortava 1/3 da massa do modelo standard. A Lamborghini decidiu não investir numa autoclave para produzir seu próprio compósito, assim, Horacio emprestou dinheiro para construir um e o instalou para seu patrão, levando o forno embora quando fundou a Modena Design em 91.

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Ali, onde futuramente seria a primeira fábrica da Pagani, fabricou peças de fibra de carbono para a equipe de Fórmula 1 da Ferrari, entre outros clientes. Ele começou a trabalhar no Pagani Zonda em 1993, que foi revelado no Salão de Genebra de 99. Essa primeira fábrica e sua autoclave ficaram sobrecarregadas pela alta demanda. A nova fábrica não tem tamanho maior que uma grande concessionária, mas permitirá que Horacio acelere sua lista de espera de dois anos, com o dobro da produção, apesar de não serem interligadas.

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“Desenhamos tudo aqui”, nos conta, agitando a mão em torno do ambiente. “Meus filhos Leonardo e Christopher, nosso time de desenhistas e eu. Tudo reflete nossa forma de pensar. Até os banheiros. Não contratamos um arquiteto. Tivemos um engenheiro estrutural, com quem travamos grandes discussões, e no final, decidimos como tudo seria”.

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“O apoio da minha família foi muito importante, porque pude me concentrar nos carros. Não podia deixar o chão de fábrica desassistido. Acho que o resultado foi bom”.

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Ele então nos levou à parte externa, um espaço em formato de L, que abriga o museu de um lado e um espaço para os clientes do outro. As vigas de aço e grandes janelas de vidro foram inspiradas no projeto de uma casa de vidro de Eiffel. Horacio realmente projetou cada parafuso e porca deste lugar. Ele substituiu os parafusos originais do Eiffel por arrebites modernos e bonitos e algumas das vigas de aço foram desenhadas para se parecerem com elementos da suspensão dos Pagani.

“O tema é o mesmo que você encontra em nossos carros. Nossa inspiração vem de Leonardo da Vinci. Leonardo era um designer que estudou engenharia e combinou tecnologia com arte, há 500 anos. Por isso nossa inspiração. Damos atenção à estética, mesmo em peças que não aparecem, como um braço de suspensão: queremos que seja uma coisa bela quando estiver sozinha, que possa ser colocada num pedestal. Nos importamos com a beleza, uma palavra que o mundo praticamente esqueceu. Mas por causa de nós, italianos, termos criado coisas belas no passado, temos a responsabilidade de ter isso sempre em mente”.

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Um pequeno grupo de turistas aparece ao redor enquanto conversamos. Devem ser os primeiros a virem aqui. A produção se mudou para cá no ano passado, porém as áreas públicas ainda estão sendo finalizadas. Eles parecem não ter percebido acima as estruturas de aço que replicam componentes da suspensão, mas atentaram para os tanques de lavagem das peças de fibra de carbono que não param de fotografar.

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Também se impressionaram com os vários Zondas e Huayras expostos ao lado do Countach Anniversary Horacio, de seu Fórmula 2 com motor Renault e com uma minimoto que ele construiu na adolescência. O local é extraordinário. Este é o único lugar no mundo, onde você pode usar a frase: “vários Paganis”. Entre os cerca de 12 aqui ou os 18 que vimos depois na linha de montagem, somamos um ano e meio de produção da Pagani, entre o Huayra anterior e o Zonda Revolution, que marcou o recorde de volta em Nürburgring. Alguns dos carros aqui foram recomprados de clientes, já que nem sempre Horacio teve condições de guardá-los. O valor de revenda fez deles um ótimo investimento.

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s13Na parede do fundo do museu encontra-se uma vasta memorabilia, incluindo a carta de recomendação do Fangio para Enzo Ferrari. A parede é rústica, de tijolos emilianos, ao contrário do moderno aço e vidro da construção do ‘showroom’, mantendo a tradição do prédio. “Na realidade são dois projetos diferentes”, explica Horacio, enquanto nos guia do museu para a área principal de montagem, através de um corredor de tijolos. A área final de inspeção de um Huayra BC combina totalmente com as janelas em arco romano. “Lá fora tudo é feito de aço e vidro, aqui tentamos criar uma atmosfera italiana, pontuada pelos tijolos, tipo de construção e mármore Carrara; tudo para fazer o projeto ser genuinamente italiano”.

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E eu achava que a fábrica da Ferrari era a mais italiana da Itália. Horacio claramente decidiu que tudo aqui seria tradicionalmente italiano, e com um toque de humor. A área principal de montagem tem o tamanho de umas quatro quadras de tênis e foi fatiada como uma pizza. Há semáforos de verdade e num canto – não estou brincando – um campanário de tijolo, uma torre com um sino de verdade, que toca de hora em hora, em sincronismo com um relógio do século XV. Dentro da fábrica! Horacio precisava disfarçar um desnível e achou que esta seria a melhor e mais divertida forma de fazer isso. Ele me mostrou um trabalhador assoviando o tema do Poderoso Chefão. Será que eles fazem isso de propósito para impressionar os visitantes?

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