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5 de maio de 1994 – O dia em que São Paulo parou

Em meio a uma comoção sem precedentes no Brasil com a morte de Ayrton Senna, coube à cidade de São Paulo honrar o seu filho mais querido. Três milhões de pessoas nas ruas mostraram que o orgulho pode ter a mesma dimensão da tristeza. Por Luca Bassani

RaceCarAyrton Senna

Fechando os olhos me lembro como se fosse hoje. A memória do ser humano funciona de várias maneiras, dependendo de como as informações são resgatadas e usadas. No meu caso, minhas fotografias me ajudam muito, mas não estou imune ao processo padrão. Geralmente as memórias emocionais relacionadas a momentos bons ou ruins são as mais preservadas que as de necessidades temporárias, como por exemplo, onde estacionei meu carro. Nessa lógica, aquele quatro de maio de 1994 sempre ocupará grande espaço em minha mente.

No dia primeiro eu estava em Florianópolis, mais precisamente no Kartódromo da Praia dos Ingleses, trabalhando na cobertura do Campeonato Sul-americano de Kart, tempos em que eu já cobria algumas provas Internacionais de Fórmula 1. Na ida ao kartódromo, vi o acidente de Senna num VW Fusca última série Prata, de um amigo que tinha no console central uma pequena TV em preto e branco. Compreendi que aquele momento era definitivo, aquele final de semana em Ímola só poderia terminar clamando a vida do nosso tricampeão.

Ayrton Senna

Ayrton Senna recebeu honras de chefe de estado na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo

Cheguei ao kartódromo onde todos perplexos como eu, aguardavam notícias do Hospital Maggiore de Bolonha, vindas sempre na voz do repórter Roberto Cabrini. Estar numa pista onde todos os jovens pilotos tinham Ayrton Senna como ídolo foi muito intenso. Lembro bem de uma cena muito forte: Luciano Burti, hoje comentarista de F1 da Rede Globo, chorava copiosamente debruçado sobre o motor de seu kart sobre o cavalete, antes da largada da corrida que o consagraria campeão Sul-americano.

De volta a São Paulo, na segunda feira, dia dois, fui contatado por alguns colegas europeus da F1, que precisavam de imagens do funeral de Senna. Em 1994 eu trabalhava como editor de fotografia na revista Auto Esporte e solicitei liberação do meu chefe Caio Moraes para fazer a cobertura na Assembleia, já que a revista não publicaria as fotos do enterro. O corpo de Ayrton Senna chegou ao Aeroporto de Guarulhos no dia 4 de maio, às 5h30m, a bordo de um avião da Varig. Depois de uma negociação entre Celso Lemos, diretor da Senna Promoções e o comandante do voo, Reginaldo Gomes Pinto, ficou decidido que o caixão só viajaria dentro da cabine se chegasse um ‘fax’ com esta ordem dada pelo presidente da Varig. O ‘fax’ não demorou a chegar e o esquife foi acomodado no recinto da classe executiva do MD-11, e não no compartimento de carga como mandava o protocolo.

Ayrton Senna

O local foi preparado com a retirada das cadeiras da fila central4 pelos mecânicos da Varig. Os passageiros foram acomodados na 1ª classe e ali viajaram apenas o narrador Galvão Bueno, Celso Lemos, a assessora de imprensa Betise Assumpção, o fisioterapeuta do piloto, Joseph Leberer e o irmão Leonardo Senna. Tal procedimento seria totalmente vetado pela aviação internacional desde aquele episódio. O repatriamento de corpos só poderia obrigatoriamente ser feito no no compartimento de carga, sem exceção.

Esta regra eu conheço muito bem, pois cinco anos à frente seria minha vez de trazer Ayrton para casa. Meu pai Ayrton Bassani faleceu na cidade de Orlando em 1999, quando estávamos em férias. Na prática, Ayrton Senna foi honrado por familiares e amigos em pleno voo de cruzeiro e pelas tripulações de todas as aeronaves que cruzavam com o MD-11 sobre o oceano Atlântico, que mandavam mensagens, sabedores que aquele voo transportava o ídolo mundial pela última vez.

Ayrton Senna

Grande rival nas pistas, o francês Alain Prost tetracampeão mundial de F1 veio ao Brasil para o enterro de Senna

A chegada em São Paulo na quarta-feira, 4 de maio, já havia provocado grande comoção. 101 km de vias foram transformadas pela população em via exclusiva para o cortejo, o presidente à época, Itamar Franco, se deslocou para prestar solidariedade à família. O local do velório foi a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo no Ibirapuera. O cortejo do corpo de Senna do Aeroporto até a Assembleia já havia levado milhares de pessoas às ruas. Durante o velório de 22 horas, 250 mil pessoas passaram em frente ao corpo de Senna. Porém, a maior homenagem ao tricampeão de Fórmula 1 seria mesmo na quinta-feira, dia 5. Chegando à Assembleia, fui credenciado por Charles Marzanasco, que até o último momento exerceu com profissionalismo o papel de assessor de imprensa do piloto no Brasil. Minha credencial não era apenas da revista Auto Esporte e sim do ‘pool’ de agências internacionais da Fórmula 1. Por esse motivo, tive o direito de acompanhar o cortejo do Ibirapuera ao Morumbi em cima do caminhão dos bombeiros, que levava aproximadamente 15 profissionais de imagens das principais agências e TVs, que abriu o cortejo. Imediatamente atrás, vinha a cavalaria da Guarda de Honra do Estado de São Paulo e na sequência o caminhão de bombeiros com o corpo de Senna.

Ayrton Senna

Na frente da Assembleia o piloto recebeu homenagens que formaram um tapete de flores

De cima do caminhão fotografei todas as honras de Chefe de Estado que nosso tricampeão recebeu. São Paulo vivia com certeza o dia ensolarado mais triste da terra da garoa. Em céu de brigadeiro, caças da FAB cruzavam São Paulo. Quando o cortejo atravessou a Avenida Brasil e virou na Avenida Rebouças, tive a real dimensão da comoção popular.

O povo se enrolou em bandeiras e buscou forças em seu semelhante para compreender tamanha perda. De repente percebi que o nosso Ayrton Senna não estava naquele carro dos Bombeiros, mas sim no entorno e dentro do coração de cada um deles. Nesse momento mudei meu foco, parei de apontar a câmera para o cortejo e voltei minha atenção ao paulistano que sofria. Lembro de cada detalhe e de cada rosto. A missão de um repórter ou fotógrafo é primeiro compreender o coletivo que muitas vezes não está no centro do fato. A grande fotografia também se esconde em fragmentos das imagens. Recentemente perdemos tragicamente o grande jornalista Ricardo Boechat, que como ninguém compreendia que o cidadão comum ou o ouvinte é sim parte relevante da história.

Ayrton Senna

Fiscais de pista de Interlagos prestam a última homenagem ao piloto em meio à Avenida Brasil em São Paulo

Os números do funeral de Ayrton Senna no dia 5 impressionam. O oitavo funeral do mundo na história contemporânea na época e o maior da história do Brasil com mais de três milhões de pessoas durante o trajeto nas ruas na cidade de São Paulo. Tamanha comoção nacional só ocorreu com a queda do avião da Chapecoense. Em termos de equivalência, podemos citar os funerais do Papa João Paulo II com quatro milhões nas ruas de Roma em 2005 e o da Princesa Daiana em Londres em 1997 com também três milhões. Muitos pilotos e dirigentes de Fórmula 1 vieram da Europa, inclusive o eterno rival Alain Prost.

Ayrton Senna

Crianças no meio do povo se despediram de Ayrton Senna a caráter, da mesma forma que torciam para o herói nas manhãs de domingo

O paulistano Ayrton Senna foi sepultado no cemitério do Morumbi como campeão mundial, herói nacional e príncipe do povo.

Ayrton Senna

O corpo de Ayrton Senna é conduzido com honras ao Cemitério do Morumbi

 

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Da esquerda à direita os pilotos Christian Fittipaldi, Alain Prost, Emerson Fittipaldi, Raul Boesel, Thierry Boutsen, Rubens Barrichello e Gerhard Berger

 

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