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A lenda Lauda

Estivemos na Áustria no meio do ano para acompanharmos de perto o primeiro Grande Prêmio da Áustria de Fórmula 1 sem Niki Lauda. O evento mostrou a dimensão do legado do austríaco, um piloto à frente de seu tempo e um profissional que influenciou os rumos da categoria em cinco décadas. Por: Luca Coser Bassani | Fotos: Alex Farias, Luca Bassani e Agência WRi2

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Em Julho de 2019, aos pés das montanhas austríacas os motores da Fórmula 1 ecoaram o nome de Niki Lauda uma última vez. O Grande Prêmio da Áustria em Spielberg é considerado, por muitos, um circuito histórico da Fórmula 1, sendo o palco da maior competição automobilística do mundo mais de 32 vezes. Após retornar ao calendário em 2014 através de uma gigantesca reforma da fabricante de bebidas energéticas Red Bull, o GP de 2019 tornou-se recentemente um dos mais aguardados do ano após a morte da lenda do automobilismo, tricampeão do mundo e ídolo austríaco, Niki Lauda. Para todos os amantes do esporte, independentemente da idade, falar da Fórmula 1 nos últimos 50 anos é falar de Lauda.

O piloto que correu 13 temporadas e foi bicampeão pela Ferrari em 1975 e 1977 e campeão pela McLaren em 1984, virou um ícone para a atual geração por seu trabalho dentro dos boxes. Niki Lauda trabalhou como diretor da atual equipe Mercedes pelos últimos 7 anos e se tornou um personagem presente em todos os GPs. Fora das pistas o currículo do austríaco sempre foi muito vasto e de uma completude difícil de se encontrar dentro das pistas, além de entender como ninguém de mecânica, assim como das oportunidades mercadológicas que ser um astro dentro dos carros mais velozes do planeta representava. Niki teve sua própria companhia aérea, a Lauda Air, empreendendo de maneira nunca antes vista dentro de um esporte que até o momento de seus campeonatos ainda era considerado algo elitista. Foi considerado por muitos não apenas um gigante no esporte, mas um visionário dentro do universo da velocidade.

A trajetória do jovem vienense foi muito bem retratado pelo filme RUSH de Ron Howard em 2013. Nele o ator hispano-alemão Daniel Brühl faz com sua atuação uma grande homenagem ao piloto. O filme retrata o início da carreira do austríaco e a disputa épica entre Niki Lauda e James Hunt pelo título mundial de 1976. Em Rush temos recontado o seríssimo acidente de Lauda no GP da Alemanha de 76 em Nürburgring, que por pouco não tirou a vida do piloto, mas cobrou a fatura 43 anos depois. Lauda que teve seu rosto e pulmões queimados no acidente e necessitou em novembro passado de um transplante de pulmões que veio a tirar-lhe a vida devido a complicações decorrentes desse procedimento.

Hoje, seis anos após o lançamento do filme e 44 anos depois do primeiro campeonato mundial de Lauda, a história é relembrada mais uma vez por toda a comunidade automobilística que deu adeus a um de seus maiores ídolos em maio de 2019. Acostumados com a presença do austríaco por quase cinco décadas no ambiente da F1, o primeiro GP da Áustria sem aquele senhor pacato e de boné vermelho andando pelo paddock foi algo inimaginável. Atuante dentro do cockpit em 13 temporadas e por mais de duas décadas como consultor para diversas equipes, Lauda criou uma relação visceral com o esporte, o que tornou sua morte algo muito mais impactante. No atual grid da Fórmula 1, o pentacampeão Lewis Hamilton lamentou a perda de seu amigo pessoal e um dos diretores da equipe Mercedes GP, “Ainda estou sofrendo para acreditar que você se foi, Niki. Sentirei falta de nossas conversas, risadas e seus abraços apertados ao final de cada vitória conquistada juntos. Foi realmente uma honra trabalhar ao seu lado nos últimos sete anos”.

Aproveitando a oportunidade histórica única de estar na casa dessa lenda, menos de 30 dias após sua morte, coletamos depoimentos de figuras muito próximas de Niki ao longo de sua carreira. Ercole Colombo, consagrado fotógrafo italiano com mais de 50 anos de experiência em mais de 700 GPs de F1, relatou com muita sensibilidade a perda daquele que foi um companheiro em seus anos como fotógrafo oficial da Ferrari. “Niki Lauda foi o piloto mais técnico e completo da Fórmula 1, entendia da engenharia que tornava o show desse esporte possível. Hoje pode-se dizer que os novos pilotos têm dentro de si alguma herança de Lauda, pois suas atitudes revolucionaram a profissão na década de 70”. Para Ercole a habilidade do piloto austríaco é comparável com a do atual pentacampeão Lewis Hamilton, igualmente técnico e preciso em suas manobras, buscando sempre tirar 100% de tudo que o carro pode oferecer. Do ponto de vista da personalidade mais introspectiva, focada e resguardada de Lauda, Colombo coloca o monegasco Charles Leclerc como o sucessor do tricampeão nesse quesito. Disse que tanto Leclerc quanto o inglês Lando Norris, relembram em sua juventude e ambição nas pistas, o jovem Niki que muito lutou para conseguir o seu espaço nos seus primeiros anos de F1.

A histórica dupla de pilotos da Ferrari com Clay Regazzoni e Niki Lauda na temporada de 1974 na largada do GP da Alemanha em Nürburgring

Com certeza um dos momentos mais emblemáticos para o fotógrafo foi o retorno de Lauda às pistas apenas 42 dias de seu terrível acidente na Alemanha. Ercole relata o grande choque que foi para todos vê-lo colocar seu capacete sob um rosto parcialmente queimado e com curativos na cabeça ainda com algumas manchas de sangue. “O fantástico 4o lugar de Niki em Monza, logo em sua corrida de retorno, foi comemorado como uma vitória de campeonato. Poucas vezes na Ferrari se comemorou tanto um resultado”, completa o italiano.

Além de fotógrafo chefe da icônica revista italiana AutoSprint, Ercole era amigo pessoal de Lauda com quem colecionava uma série de histórias. “Niki era um piloto que prezava sua privacidade, mas era muito direto em suas respostas quando perguntado. Com a mídia de forma geral, ele era muito acessível e educado, mas comigo, em especial, tinha uma relação de amizade muito forte, principalmente em seus anos de Ferrari”, explica o italiano. “Na ocasião de seu campeonato mundial, a Ferrari contratou uma pintora para imortalizar o piloto em um quadro à óleo. Quando se sentou para posar para o retrato, dizem que Niki mandou perguntar onde eu estava. Queria que eu fizesse logo a foto, já que demoraria uma eternidade para ser retratado posando e o resultado seria o mesmo”. Colombo conta que em diversas ocasiões, Lauda emprestou seu carro pessoal para que pudesse fazer seu trabalho e ir dos hotéis às pistas: “Tudo o que ele realizou dentro e fora das pistas roda hoje em minha mente como um filme, cujo protagonista era alguém que tinha o prazer de chamar de amigo”, concluiu emocionado a lenda italiana da fotografia.

Niki Lauda no pódio do Grande Prêmio da Áustria de 1984 em Zeltweg, unica vitória do tricampeão em casa

Outro personagem muito interessante encontrado no paddock do Red Bull Ring em julho por nós da CAR Magazine, foi o Dr. Harald Hertz, cirurgião especializado em acidentes e médico do circuito há mais de três décadas. Novamente fomos abençoados pelos deuses do automobilismo ao descobrir que o doutor fora amigo de infância de Lauda, estudando com ele da 5a série do fundamental ao 1o colegial em Viena. Dr. Hertz disse que desde pequeno Niki era um amante do automobilismo e sempre quando perguntado respondia que correr de automóvel era o seu sonho. “Niki não era o melhor aluno que tínhamos em nossa classe, mas era com certeza o mais obstinado e esforçado de todos nós. Lembro-me que os Laudas moravam em uma grande casa em um bairro nobre de Viena e tinham um jardim enorme. Niki passava várias tardes do ano correndo com sua moto em todos os cantos desse jardim, apenas com 12 anos de idade. Com o tempo as motocicletas viraram fuscas e carros e um dia a Fórmula 1”, relembra entusiasmado o médico. “Quando tinha 18 anos comprou seu primeiro carro Mini Cooper S e depois graças a um amigo nosso, Fritz Baumgartner, conseguiu seu primeiro carro de corridas e na sua primeira prova nacional já havia conseguido um segundo lugar. Depois comprou um Porsche 911 para correr e em pouco tempo tinha se tornado campeão austríaco. Tudo foi uma questão de tempo para que Niki chegasse à sua tão sonhada vaga na F1”.

Dr. Harald relatou como foi um tabu para seu amigo confrontar a família tradicional de industriais e seguir o seu sonho nas pistas: “O avô e o pai de Niki eram importantes empresários na capital e diziam que o nome Lauda era algo lido no caderno de economia dos jornais vienenses e não no caderno de esporte. Após seu sucesso como piloto, Lauda criou sua própria companhia aérea e finalmente estava não apenas nas páginas esportivas, realizando o sonho da família também”.

A relação do bicampeão Niki Lauda com o Grande Prêmio de seu país relembra muito o que se passou depois de mais de 10 anos com Ayrton Senna no Grande Prêmio Brasil. Quando já eram bicampeões mundiais tanto Lauda como Senna demoraram para vencer um GP em casa. Depois de algumas tentativas frustradas na época dos títulos na Ferrari, em 1984 Lauda foi o primeiro austríaco a ganhar um Grande Prêmio em casa de McLaren. Na época o Dr. Hertz, já como médico do circuito, relembra de forma muito vívida o dia da corrida: “O dia em que Niki venceu aqui em Spielberg é algo inesquecível em minha mente. Ele foi o primeiro e único do nosso país a vencer um GP na Áustria”, completa o médico. Também em relação ao episódio mais emblemático na carreira de Niki, o cirurgião analisa o quanto mudaram os padrões de segurança da categoria: “Naquela época tanto para o piloto como para os espectadores a Fórmula 1 era um evento muito perigoso. As pessoas assistiam às provas sem proteção e extremamente próximas aos carros. Os pilotos arriscavam suas vidas de maneira absurda em carros que não continham uma tecnologia voltada para a segurança e incompatível com o nível avançado dos potentes motores. Hoje, graças aos avanços na minha profissão e na engenharia como um todo, temos um esporte muito mais seguro”, finalizou o doutor.

Desde que o holandês Max Verstappen assumiu o posto de piloto titular na equipe Red Bull, a fabricante austríaca de bebidas energéticas promoveu ações especiais de marketing para atrair os torcedores holandeses para todos os circuitos europeus, o que tem dado incentivo extra ao piloto e à equipe. Só esse ano 50 mil fanáticos torcedores laranjas invadiram Spielberg para apoiar o ídolo compatriota, além de comparecerem em grande quantidade também nos GPs da Bélgica, Alemanha e Itália. Isso nos dá uma ideia de como será o grande prêmio da Holanda em Zandvoort, de volta ao calendário em abril de 2020. Na Áustria presenciamos a primeira vitória do ano da Red Bull e também a volta da Honda ao lugar mais alto do pódio após 13 anos, desde a conquista de Jenson Button no GP da Hungria de 2006. Desde então, o campeonato relativamente monótono com a liderança absoluta das duas Mercedes abriu espaço para um segundo semestre muito mais competitivo e vibrante para os fãs de corridas disputadas e emocionantes. Após a tradicional pausa de três semanas no verão europeu, a Ferrari e a Red Bull quebraram a hegemonia da alemã Mercedes, principalmente pelo incrível desempenho do monegasco Charles Leclerc com quatro poles e duas vitórias e também do holandês Max Verstappen, estando sempre entre os cinco melhores do grid. Agora às vésperas do GP Brasil, podemos esperar uma corrida muito mais disputada que as anteriores, carregada por um espírito bastante competitivo entre os pilotos das três forças principais da F1 nos últimos anos. Apesar do hexacampeonato da Mercedes ser quase certo, os fãs sempre se entusiasmam com uma disputa mais equilibrada e imprevisível como têm sido as últimas corridas.

De volta à lenda, Niki Lauda alcançou um reconhecimento de seu legado que poucos jamais alcançarão fora das pistas. Sua postura como atleta, a sinceridade de seus olhos e o seu trabalho para o desenvolvimento da Fórmula 1 transcendeu gerações. A Fórmula 1 sem sua presença jamais será a mesma, nos resta sonhar que este esporte vença a estatística e um dia nos traga alguém com semelhança de alma e espírito. Por tudo que fez por seus colegas na Fórmula 1, amigos, e fãs do esporte, basta-lhe dizer: Danke Niki!


RUSH: VALE A PENA VER DE NOVO

Nesse momento em que o mundo do automobilismo honra a história do tricampeão Niki Lauda vale a pena rever o filme Rush do premiado diretor Ron Howard sobre a batalha épica entre James Hunt e Niki Lauda pelo título mundial da F1 em 1976. É o resgate de uma época em que os homens eram maiores que as máquinas, um contraste com o atual momento da categoria, onde a tecnologia é quem dá as cartas. O filme conta a carreira de Lauda desde a Fórmula 3 inglesa, seu início na F1 e a ida do austríaco para a Ferrari, assim como a conquista do seu primeiro título com os italianos em 1975. Todavia, a espinha dorsal do roteiro é mesmo a rivalidade entre Hunt e Lauda na luta pelo título mundial daquele ano. O confronto entre dois homens com personalidades absolutamente opostas que levam a disputa ao limite da vida.

A Fórmula 1 passava desde 1972 por um gigantesco crescimento de mídia e marketing. Pela primeira vez deixava de ser um esporte da aristocracia europeia e passava a virar um circo de caráter mundial. O tempo era de transformação da indústria automotiva com uma busca frenética por desempenho, porém em circuitos decadentes. Um ambiente feroz quando a categoria matava em média dois pilotos por temporada. O filme Rush retrata com perfeição a ebulição do mundo musical inglês e a cultura europeia da década de 70, quando a F1 também era vanguarda. Nunca em sua história o design dos carros foi tão criativo e excêntrico. Eram cores em movimento num ambiente novo, desconhecido e frenético. A chegada da TV em cores distribuía ao mundo por satélite e ao vivo essa imagem POP de um esporte psicodélico. Era um folhetim dramático com heróis sem capa, mas de capacete. Príncipes sem cavalo, mas montados numa cavalaria que poderia ser mortal. Uma época em que a Fórmula 1 era inocente, brutal e colorida. Nesse contexto temos de um lado, o bem ajustado piloto austríaco Niki Lauda (Daniel Brühl).

Preciso acertador de carros, profissional exemplar e com uma técnica natural excepcional. Do outro o ‘playboy’ Inglês James Hunt (Chris Hemsworth) que vivia a sua vida intensamente, cercado de mulheres e álcool. Uma mistura do mocinho galã com o bandido contraventor venerado. Se Lauda era matemática e física em estado puro, Hunt era gasolina de alta octanagem, na forma mais volátil. Com orçamento de 38 milhões de dólares o filme Rush foi rodado totalmente na Europa, com locações na Áustria, Inglaterra e Alemanha. O acidente de Niki Lauda no Grande Prêmio da Alemanha de 1976 em Nürburgring foi recriado no mesmo trecho do circuito alemão.

Lauda, campeão mundial pela Ferrari no ano anterior havia criticado o circuito alemão, afirmando que o mesmo já não era mais adequado para o estágio de desenvolvimento da Fórmula 1. Com seu sinuoso traçado de mais de vinte quilômetros na floresta de Adenau no noroeste alemão, Nordschleife já tinha a fama da pista mais perigosa da Europa. As condições da pista no dia do acidente de Lauda eram um pesadelo para qualquer estrategista ou piloto: metade do circuito de 22 quilômetros estava molhado, a outra metade seca, destruindo os pneus de chuva em poucas voltas. O austríaco com pneus slick desgarrou sozinho na quinta volta e bateu forte contra o “guard rail”.

Sua Ferrari, já em chamas, voltou à pista e foi colhida pelo March do italiano Arturo Merzario. Lauda começava ali a travar sua luta pela vida. Preso por mais de um minuto dentro de um inferno de mais de 800 graus Celsius, a certo momento Lauda não conseguia mais respirar e tirou o capacete em meio às chamas, o que praticamente derreteu a parte superior de seu rosto. Consciente durante o resgate e o hospital o austríaco, travaria uma longa luta contra a morte. Na segunda feira após a corrida Niki foi desenganado pelos médicos e chegou a receber a extrema-unção, os gases quentes do incêndio haviam queimado seus pulmões. Porém a dedicação de Lauda ao tratamento, fazendo 10 vezes mais o solicitado pelos médicos mudou a lógica.

A sobrevivência do piloto na época foi considerada um milagre, porém hoje sabemos que Lauda pereceu vítima das sequelas desse acidente, 43 anos depois ao precisar de um transplante de pulmões em novembro de 2018.

Em 76, até o acidente, Lauda liderava o campeonato com Hunt no seu encalço. No final de sua recuperação ainda no hospital, o austríaco já assistia as corridas na TV e o domínio do inglês. Esse foi o principal fator para trazer o piloto ainda com feridas de volta às corridas. Apenas 42 dias após o inferno de Nürburgring, Lauda alinha no grid de largada do GP da Itália em Monza, para terminar em quarto lugar e ser erguido como herói nos ombros dos Tifosi italianos. No confronto final no chuvoso GP do Japão em Fuji, Hunt se tornou campeão do mundo com um terceiro lugar após o abandono espontâneo de Lauda, que considerou que as condições da pista molhada não tinham a mínima segurança necessária: “já tive o bastante por uma temporada”.
Luca Bassani

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