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Análise: a nova Fórmula 1 em tempos de COVID

A temporada 2020 da Fórmula 1 está voltando para correr num mundo novo e sem público. A pandemia de proporções mundiais deixou a categoria em um paradoxo sem precedentes.

RaceCar

Novos TEMPOS, NOVOS VENTOS. A Fórmula 1 teve que se adaptar a pandemia do Covid-19 e criar novos protocolos para poder iniciar a sua temporada #71. Nunca a categoria passou por um teste tão extremo, já que oficialmente a F1 nasceu em 1950, após a Segunda Guerra Mundial. Para se ter uma ideia até o início do segundo semestre do ano de 2020, a categoria só conseguiu concluir seis dias de testes de pré temporada em Barcelona em fevereiro.

Quando o circo desembarcou na Austrália no mês de março para fazer a primeira etapa em Melbourne, o crescimento da contaminação na Europa fez a F1 chegar à Melbourne já contaminada pelo Covid-19. Na época um funcionário da McLaren foi diagnosticado positivo para o novo coronavírus e também haviam várias suspeitas em outras equipes. O cancelamento do GP ocorreu na quinta feira anterior a prova já com todo o circo da F1 montado.

A partir de Melbourne e com a pandemia crescendo vertiginosamente no mundo os eventos foram caindo como dominó e o calendário mudando a cada mês. Na sequência do GP da Austrália 2020, foram cancelados em definitivo os GP do Bahrein e o GP de Mônaco. A não realização da prova mais charmosa da temporada nas ruas de Monte Carlo foi mais um golpe duro para a categoria, porém uma decisão muito lúcida do Automóvel Clube de Mônaco, já que um adiamento era inviável para a agenda do Principado. Na sequência foram cancelados os GPs da Holanda, Azerbaijão, Canadá, Singapura e Japão.

Enquanto os GPs da China e do Vietnam esperam uma oportunidade para terem uma nova data, o GP da Espanha já conseguiu ser confirmado para 16 de agosto em Barcelona. O novo calendário parcial com oito etapas terá seu início com o GP da Áustria em Spielberg no Red Bull Ring em 5 de julho. As instalações do impecável circuito da empresa de energéticos reúne as condições ideais para uma corrida de portas fechadas para o público e com protocolo de saúde rígido de distanciamento dos profissionais de paddock.

A antiga pista de Zeltweg ou ainda A1- Ring fica em uma zona rural no interior oriental da Áustria, cuja cidade grande mais próxima é Gratz a cerca de 80 quilômetros. Adotar novos protocolos de segurança sempre foi uma virtude da Fórmula 1, está no seu DNA. Também as etapas da Nascar e da Fórmula Indy, que já ocorreram em solo americano, país # 1 da pandemia deram boas ideias para a categoria, que deverá realizar as duas etapas em Spielberg sem problemas. A pista austríaca ainda será o palco uma semana depois do GP da Estíria em 12 de Julho.  Depois a F1 segue para a Hungria e chega à Inglaterra para uma rodada dupla em Silverstone, com os GPs da Inglaterra em 2 de agosto e 70 anos de Fórmula 1 em 9 de agosto.

Na sequência o GP da Espanha, e GP da Bélgica ainda em agosto e o GP da Itália em Monza em 6 de Setembro. Para definir a sequência do calendário será preciso aguardar a evolução da pandemia na América do norte assim como no Brasil, dois epicentros da pandemia no momento, mas que podem oferecer condições entre outubro e novembro. Provavelmente nesse ano de 2020 a categoria só conseguirá realizar de 15 a 18 corridas entre os 22 programadas anteriormente.

O desafio da Fórmula 1 é alinhar-se à nova realidade mundial, salvar o maior número de eventos na temporada 2020, sem desafiar às determinações da Organização Mundial da Saúde e alinhar-se com às autoridades locais do país de cada GP.  Para se adequar ao momento histórico sem precedentes a categoria decidiu que o atual regulamento da F1 para 2020 permanecerá por mais uma temporada, e que as mudanças radicais previstas para 2021 serão transferidas para 2022.

Como os projetos de 2021 já estavam em andamento, a categoria decidiu manter os modelos de 2020 também para 2021, e assim reduzir os custos em meio à crise. Algumas adaptações serão permitidas entre as duas temporadas, como no caso da equipe McLaren, que terá os motores Renault em 2020 e Mercedes em 2021. Esse uso de um modelo em duas temporadas é também inédito nas últimas décadas: o regulamento do Mundial de Construtores de Fórmula 1 exige um chassis novo de cada equipe a cada ano.

O domínio da Mercedes nos últimos campeonatos, com seis títulos consecutivos entre os construtores, e cinco títulos para Lewis Hamilton e um para Nico Rosberg entre os pilotos, deverá manter-se por mais dois anos.  Como as mudanças para 2022 serão muitas, podemos imaginar um realinhamento de forças no grid na ordem das equipes. Então, com o regulamento atual Lewis Hamilton teoricamente terá uma bala de prata na agulha, para tentar superar os sete títulos de Michael Schumacher, em duas temporadas com o mesmo modelo.

O inglês já tem seis títulos, cinco com as flechas prateadas alemãs e um com os compatriotas ingleses da McLaren, aquele de 2008 quando Felipe Massa venceu em Interlagos e ficou campeão do mundo por trinta segundos. Hamilton, depois de superar o recorde de pole position do alemão ainda em 2018, e já com 84 vitórias na carreira terá também a chance em 2020 de superar os 91 triunfos de Schumacher na F1, algo inimaginável anos atrás.

Os novos carros, agora só para 2022 serão robustos com uma linha até futurista. A arquitetura principal dos bólidos atuais permanecerá, mas toda a parte de apêndices aerodinâmicos serão banidos, com as asas dianteiras e traseiras mais integradas ao monocoque. O objetivo é aumentar o número de ultrapassagens e fazer que os carros de Fórmula 1 andem mais próximos. Atualmente os carros da F1 precisam de ‘ar limpo’ para gerar downforce, que é a pressão aerodinâmica que gera maior aderência nas curvas. Perseguir um outro carro próximo na pista é impossível no regulamento de hoje quando os bólidos perdem cerca de 50% da eficiência do downforce e as ultrapassagens ocorrem na sua maioria pelo dispositivo da asa móvel.  A partir do recente anúncio da proibição do uso de túnel de vento visando a redução de custos, o desenvolvimento dos novos carros serão feitos por simulações em programas de computadores, um desafio ainda maior para os projetistas e engenheiros das equipes. Também os novos pneus da Pirelli, com perfis mais baixos com rodas de aro 18 polegadas e não os 13 atuais, esperarão 2022 para estrear.

Como CAR Magazine antecipou na sua edição 98, a Fórmula 1 já iria passar por um grande stress financeiro em 2020, causado pelo impacto das mudanças radicais do novo regulamento previsto para 2021, quando as equipes de F1 terão um teto orçamentário no valor de US$ 175 milhões (cerca de R$ 730 milhões) por temporada, um corte de mais de 35% do orçamento padrão atual das equipes de ponta. Segundo alguns chefes de equipes o desenvolvimento sem restrições no momento faria a F1 passar em 2020 pela temporada mais cara de sua história, subsidiando sem limites os caríssimos projetos dos novos carros.

Agora com a extensão do uso dos modelos de 2020 para a temporada de 2021, e o impacto causado pelo novo coronavírus, os orçamentos serão reavaliados. Enquanto a Fórmula 1 não inicia a temporada 2020 em Julho, os 6 dias de testes dos novos modelos em Barcelona em fevereiro, podem indicar o que está por vir. Nos últimos anos nem sempre a equipe que liderou a tabela dos tempos nos testes mostrou a mesma eficiência nas provas.

Durante os testes cada time segue o seu programa entre simulações de corridas e voltas rápidas. Neste primeiro encontro no circuito da Catalunha a maior novidade foi o equilíbrio entre as equipes intermediárias. Destaque para o excelente rendimento da Racing Point, apelidada de Mercedes Rosa e o boa recuperação da tradicional equipe Williams. Entre as equipes principais Mercedes, Ferrari e Red Bull a ordem de forças da temporada anterior parece mantida.

A hegemonia dos alemães da Mercedes deverá continuar auxiliada por um sistema revolucionário chamado DAS, do inglês ¨Dual Axis Steering ¨ um sistema que envolve a coluna de direção com duas configurações de suspenção e cambagens. O sistema atua alterando o posicionamento do volante, dependendo de retas ou curvas, e é visível até na câmera onboard. Reclamado por várias equipes a FIA já deu o aval para a temporada corrente, porém avisou que o sistema não será aceito no novo regulamento para 2022, que prevê restrições nas suspensões para a contenção de custos.

As outras equipes estão no momento aproveitando as férias forçadas do Covid-19 para introduzir a novidade para o meio da temporada, ou até no seu início, já que a Ferrari divulgou que só teria o sistema em meados de julho. O duelo entre Sebastian Vettel e Charles Leclerc pela supremacia dentro da Scuderia Ferrari não tem data marcada, mas será inevitável. Outro postulante ao título de campeão mundial de 2020 é o excelente Max Verstappen da Red Bull, que conta com a evolução dos motores Honda, porém terá que ser além de arrojado e vitorioso, mais regular. A Renault deverá evoluir nas mãos do competente Daniel Ricciardo e terá também o jovem francês Esteban Ocon, que volta ao grid de titulares, depois de um ano como reserva na Mercedes.

A temporada 2020 da Fórmula 1 tinha, ou terá ingredientes para ser uma das melhores da história. Os roteiristas da boa série da NETFLIX, ¨Drive to survive¨, jamais imaginariam o contexto da F1 neste início de 2020 para a sua terceira temporada. Também a F1 ficará marcada pelo Covid-19 em seu DNA para sempre, assim como as cepas dos vinhedos da Europa ficaram marcados pela praga de proporções bíblicas da Filoxera em1863. Jamais existirá um F1 2021 original para os fanáticos colecionadores.

O GP de Mônaco não acontecerá pela primeira vez depois de 66 anos. Tudo o que sempre foi tradicional no circo da F1, será circunstancial em 2020 e no momento imprevisível. A celebração do tradicional pódio da categoria já foi cancelado para 2020, voltará somente quando o contágio terminar no mundo. A Fórmula 1 2020 volta a competir num ambiente controlado dentro dos protocolos do ¨novo normal¨ em que até jornalistas e fotógrafos permanentes por décadas terão que fazer revezamento nas etapas. Tudo parece muito novo e chato, mas chato mesmo é ficar sem as corridas de F1 nos domingos.

  • – Com Luca Bassani
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