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O carro que invadiu a pista e as lições que devem ser tomadas

De quem é a culpa? Os narradores se excederam? A pessoa se aproveitou da situação? Os promotores estão quietinhos... O certo é que o automobilismo só saiu perdendo - afinal, quem ganhou as corridas?

RaceCar

Essa matéria merece ser escrita em primeira pessoa pois fui o comentarista da prova, presenciei a cena, não estive presente no seu desenrolar e, junto com meu parceiro Luc Monteiro, o locutor, fomos quase escalados para segurar uma bandeira que não é a nossa e pedir desculpas por algo que não fizemos.

Como todos devem ter visto, o Mercedes-Benz Challenge obteve retorno maciço na televisão brasileira no último domingo. Não pelas corridas em si, que foram ótimas, mas pelo episódio de um carro desconhecido na pista. Narrando ao vivo, com a informação oficial que era tal. O vídeo do momento se perpetuou, viralizou, junto com o momento do resgate da pessoa, onde ficam posições bem definidas: a “crueldade” da narração e a “inocência” de quem não sabia o que estava fazendo. Entre aspas, pois foram as definições citadas por muitos, inclusive pela pessoa envolvida em uma entrevista.

A pessoa que entrou na pista pode não ter tido culpa, mas se aproveitou da situação para abraçar o personagem criado por um grupo de pessoas que gosta de ver o circo pegar fogo. Assumiu a alcunha de “invasora do Mini Cooper”, disse que não sabia, não foi orientada, atacou quem narrou, mas esqueceu dos pilotos envolvidos (que eram 30) e de apagar uma foto de 2015 no seu feed do Instagram onde mostrava ela fazendo um curso de direção defensiva em pleno Interlagos, a metros do lugar por onde ela acessou a pista. E se esqueceu do bom senso, também.

Se ela pegou pilha com o estímulo de “influenciadores” (ou melhor, aproveitadores) eu não sei, mas ela foi bastante infeliz na sua posição, incomodou muita gente e meteu os pés pelas mãos com sua atitude, que provocou uma patrulha de perseguição – até o marido intimidou o Bruno Vicaria, mas o errado, o Vicari, do SBT, passando mais vergonha ainda. Isso incomodou desde a nós mesmos, à Mercedes-Benz do Brasil, todos os pilotos e todos os entusiastas do esporte. Não à toa, apagaram-se entrevistas, a alcunha foi tirada do Instagram dela, devidamente trancado após ver que o certo era agradecer que nada aconteceu ao invés de querer atenção, o que fez ela perder totalmente a razão no caso. A gente pode até rir disso anos depois, mas no dia seguinte o que deveria imperar era a reflexão e não acordar com a atenção sendo desviada de um fato grave para a palavra de duas pessoas que estavam comentando ao vivo no calor do momento.

Se a intenção era a inversão de valores eu não sei, mas que isso quase foi concretizado, foi.

Aliás, até agora, ninguém foi perguntar ao Adriano Rabelo, que foi o primeiro a dar de cara com ela, se ele está bem, a opinião dele. Ou do Cello Nunes, cujos pais estavam vendo pela televisão aquele show de horrores com o coração na boca vendo o filho correndo o risco de morrer e matar. O que vale aqui, a crítica da transmissão ou a realidade da situação? Nesse mundo de internet, a imagem social vem em primeiro lugar, né, então ao invés de procurarem as pessoas certas, resolveram julgar as erradas (Luc e eu), o lado considerado fraco da corda. Pegamos ar, pegamos. O Luc, principalmente, por ser piloto também. Me excedi falando que devia expor, sim, tanto que meu diretor me alertou e eu retifiquei durante a transmissão que de cabeça quente em uma situação dessas acabamos pegando ar. Cometemos um erro a usar uma palavra de cunho racista sem intenção, sim, mas fomos alertados por bons amigos e colegas e pedimos desculpas respeitosamente. Fomos íntegros e honestos na nossa postura o tempo todo.

Isso acabou mexendo em um outro grupo, o das mulheres que levam o esporte a motor, o carro, a sério. E algumas tentaram nos colocar como bastiões deste movimento, como se tivéssemos comentado tudo aquilo sabendo do que tinha acontecido – sendo que nem falamos em gênero, nem citamos o nome de ninguém. O vídeo, obviamente, foi aproveitado por muita gente oportunista para ganhar likes e seguidores e, também, para diminuir a imagem feminina ao volante. Por sorte, as pessoas sérias desses ambientes nos conhecem, conhecem o ambiente e a situação para controlar um pouco os ânimos exaltados.

E os culpados? Enquanto até que nos provem o contrário de que ela não tem culpa, a FASP (que é filiada à CBA, o que mereceria um esclarecimento da própria), o Piratininga Esporte Clube, o organizador da arrancada e a turma da segurança estão aproveitando essa cortina de fumaça para se manterem quietos. Inclusive jogaram o nome da moça na fogueira e ela transformou isso num ótimo marketing pessoal. De quem é a culpa da falta de orientação na arrancada, de ter uma sinalização no fim do longo retão (mesmo sendo nítido que aquele era um caminho para a pista) e de ter alguém ali orientando? Um evento que nem exame de Covid pediu – o que me fez comentar e ir embora na mesma velocidade que cheguei e me coloca em dúvida se retorno ou não para comentar a próxima etapa.

A culpa não é minha, não é do Luc, não é do Mercedes-Benz Challenge e nem da Mercedes do Brasil, que viu sua imagem associada a um episódio grotesco semi-trágico envolvendo um carro de outra marca ao vivo e em rede nacional sendo que a ideia era fazer uma corrida segura mostrando a beleza e qualidade de seus carros e viu sua imagem ser desmoralizada. Aliás, como acontece em 100% dos eventos de automobilismo, a transmissão é em horário comprado e quando tudo foi colocado em pratos limpos não tinha mais transmissão e a personagem já estava dando entrevista para todo mundo.Ela, certamente, vai ter muita dor de cabeça não só pelo episódio, mas pela forma como ela e seus próximos reagiram, mas isso é outra história. Afinal, internet não é terra de ninguém, apesar de parecer ser o contrário e vemos provas todos os dias de que a internet é implacável e nada passa imune,.

E não somos nós que temos de nos retratar. Mal-entendido por mal-entendido, o nosso é o menor dos problemas. Quem tem de se retratar são todos os envolvidos, física e juridicamente, na realização deste evento para todos os que foram expostos, não só para o site de notícias que só quis ver um lado ou o social influencer que os agradam e incita as pessoas a crucificarem as pessoas erradas. Houveram muitos erros, mas todos eles de fora da pista, por atitudes e falhas. O esporte, que é bom, só se prejudicou.

O importante nisso tudo é tirar lições para que nosso esporte não seja manchado mais ainda por bobagem e irresponsabilidades. Já perdemos a F1, para lotearem a pista bastam cinco minutos. Muitas familias vivem disso e muitas vidas também estão em jogo. E, se tiver um responsável, ele deve resolver sim criminalmente, pois, ao contrário do que acha, isso é sim um caso de polícia. Não é o Taxi do Gugu – seja quem for. Não é caso pra tirar sarro, é caso para servir de exemplo. Ou vamos ficar assim até a próxima pessoa entrar por engano e ser dilacerada em pedaços ao vivo para o mundo ver.

Mais respeito de todas as partes, talvez, seja a resposta para tudo o que aconteceu. Pois nem o Luc muito menos eu queremos narrar e perpetuar uma tragédia, pois era isso que poderia ter acontecido.

PS: as corridas foram vencidas por Adriano Rabelo, César Fonseca, Witold Ramasauskas e Cláudio Simão, que agradecem a preocupação nula tida com eles.

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