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O diabo mora nos detalhes

Até que ponto você quer chegar com seu super SUV? Extremamente esportivo? Extremamente robusto? Ou extremamente bom? Só não pode esperara que nenhum deles salve o planeta... Por Georg Kacher | Edição Alan Magalhães | Fotos Tom Salt

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Que momento estranho vivemos. Momento em que um Range Rover é mais o humilde, seguro e com melhor preço. Ele está conosco há 39 anos e através das décadas vem – também com muitos elogios – sendo criticado por ser muito grande, vulgar, beberrão e caro. Não mais.

Neste grande comparativo, o Range Rover aparece orgulhosamente no meio da estrada – uma estrada que inclui autódromo e ativista ambiental, transporte escolar e aventuras no deserto que poderiam acontecer em Dubai, Beverly Hills, Moscou ou nas terras altas da Escócia. Os preços partem de cerca de R$ 390 mil (na Europa, sem impostos), mas nosso V8 Supercharged Autobiography custa R$ 145 mil extras.

Num dos extremos aparece o Lamborghini Urus: estilo batmóvel, desempenho próximo de um supercarro a partir de R$ 805 mil. Na outra ponta o G63 versão AMG do Classe G da Mercedes, uma linha que perdura há quatro décadas e que recebeu seu mais significativo ‘upgrade’ em 2018. Nessa última geração, ele parece pronto para deixar de ser apenas um clássico ‘cult’ para se colocar como uma séria opção. O carro mudou, mas não muito mais do que seu mercado cativo. Quando o Classe G nasceu, seus maiores interessados eram lenhadores, militares e agências de socorro humanitário. Hoje, metade das vendas são da versão AMG.

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Estes supostos ‘off-road’ do comparativo são na verdade totalmente versáteis

Nosso trio de hoje é composto por seres isolados e com personalidade própria. Poderíamos ter naturalmente incluído o Rolls-Royce Cullinan e o Bentley Bentayga neste comparativo, ou os relativamente civilizados Audi Q8 e Porsche Cayenne. No horizonte, vemos o Ferrari Purosangue e o Aston Martin DBX. Estes grandes e potentes SUV precisam ser levados a sério.
O Urus, Range Rover e o G63 são unidos por uma mistura de desempenho na estrada, habilidades fora dela, robustez, luxo e muitos acessórios premium: todos honram integralmente a sigla SUV. Mas afora essas coincidências, cada um tem suas ambições. O Urus quer ser o mais rápido, o Range Rover aquele carro de luxo que encara qualquer coisa e o Classe G é um ‘off-road’ capaz de andar rápido sobre o asfalto. Se o Urus é um supercarro de salto alto e o Range Rover um canivete suíço, o G63 é um montanhista cheio de energia. Os julgamos não apenas um contra o outro, mas contra suas ambições.

Todos são SUVs luxuosos de alto desempenho, mas cada um tem suas ambições

O Lamborghini não deixa dúvidas sobre suas prioridades, capô enorme e vários detalhes hexagonais e em forma de Y. É o mais baixo deles.
O motor V8 de 4.0 litros biturbo de 641 cv instalado no Urus é o mais recente desenvolvimento do motor desenvolvido pela Porsche para o VW Group. Enquanto o Range Rover é oferecido com versões diesel V6 e V8, e híbrida que utiliza um 4 cil a gasolina, mesmo combustível queimado pelo V8 supercharged que temos aqui, a linha do Classe G inclui uma unidade a diesel. O irracional Urus tem versão exclusivamente a gasolina, o que mostra claramente as ambições da Lamborghini. Ele tem quatro rodas direcionais, tração integral com vetorizador ativo traseiro de torque, suspensão pneumática adaptativa com amortecedores também adaptativos, barras estabilizadoras ativas e freios em carbono-cerâmica. Há três programas de condução para estrada e dois para ‘off-road’.

Nosso Range Rover é o único que lançou mão da tecnologia de compressor volumétrico (supercharged) no lugar de turbinas. Seu V8 5.0 l gera 518 cv. A suspensão é totalmente independente, com triângulos duplos na frente e traseira, que embarca sistema Multi-Link. O amortecimento é continuamente variável.

Além do diferencial traseiro ativo, há três programas de condução para asfalto e três para ‘off-road’, mais o Low Traction Launch System e o Hill Descent Control. A altura do carro pode ser aumentada para situações fora de estrada e rebaixada para facilitar o acesso; ele se rebaixa automaticamente acima dos 105 km/h para reduzir o arrasto.

Mais até do que o Range Rover, a herança predominante do Classe G é o ‘off-road’, mas sempre com modelos focados no desempenho. O G63 utiliza uma versão do V8 4.0 l da AMG com duas turbinas de geometria variável, aqui com 577 cv. O 63 vem com vários detalhes AMG – grade diferenciada, grafismo iluminado nas soleiras, rodas de 20 pol., pinças de freio vermelhas – e interior com nível altíssimo. Apesar do design seguir as linhas tradicionais do Classe G, a cabine do 63 não desapontaria um usuário de Classe E ou S.

O Lamborghini simplesmente manda na estrada entre 200 e 305 km/h.

O Lambo realmente se comporta como um esportivo. Rolagem do Mercedes não é perfeita. Range Rover continua flutuandoSeus fundamentos são um chassi flexível com vários setores e molas de aço nas quatro rodas. Na frente a suspensão é independente e com triângulos duplos e na traseira, Five-Link e eixo rígido. Amortecedores adaptativos são standard, assim como a direção eletromecânica adaptativa, estreando em um Classe G.

Há três diferenciais blocantes no sistema de tração integral que privilegia tração traseira. O câmbio é o conhecido nove marchas automático da Mercedes, com software melhorado. Você pode substituir as trocas automáticas pelas borboletas e ao pressionar a chave Manual, cessarão as trocas indesejadas. Há cinco programas de condução para asfalto e três para ‘off-road’.
Os arcos de roda do 63 são mais suaves que os dos modelos anteriores; rodas de 21 ou 22 pol. podem ser especificadas. Opcionais incluem o pacote AMG Driver, que é uma atualização de software de R$ 9,7 mil que proporciona velocidade máxima de 220 para 240 km/h. A porção da família que gosta de lama também ficará feliz, já que ele vem com uma redução da transmissão à moda antiga, afinal, “off-road é para ser apreciado, não disputado”.

O Urus parece curto, baixo e compacto nesse grupo, mas na verdade ele é 112 mm mais longo que o Range Rover (exceto a versão com entre-eixos maior) e supera o Mercedes por 239 mm. Em combinação com a distância entre-eixos mais longa, espera-se uma vantagem tangível. No entanto, ele tem menos espaço para bagagem que o Mercedes, que é bem mais curto (616 litros no Urus e 667 l no G) e engolido pelo Range Rover com seus 900 litros.

Três grandes SUV, três formas diferentes de acessar o porta-malas. A tampa do Mercedes é lateral e ultra pesada por causa do estepe acoplado a ela. A porta horizontalmente separada do Range Rover é ótima para piqueniques, mas ruim para o acesso de grandes malas. A do Lamborghini abre-se para cima, estilo ‘station wagon’ e carrega dois spoilers que atrapalham a visão traseira.

A cabine do Lamborghini inspirada nos aviões revela três telas: uma para os instrumentos, outra para informação e entretenimento e uma última para funções de conveniência. O interior pode ter um banco traseiro para três pessoas ou dois assentos individuais (que cortam 41 litros do porta-malas). Assentos elegantes e materiais nobres fazem parte de uma cabine que mescla praticidade para o dia a dia com uma postura de verdadeiro esportivo.

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Off-road de verdade. Feliz agora? Mesmo o baixo Urus mostrou-se capaz

O Range Rover, sem surpresa, traz uma cabine luxuosa tradicional de alto nível, na frente e traseira e com uma série de ajustes – alguns feitos via smartphone. Descansa-braços aquecidos estão entre os detalhes que dizem: ‘bem-vindos’ aos ocupantes.

No Série G você se sente invencível. A posição de condução proporciona grande visibilidade, tem superfícies chiques, bancos muito melhores, mas ainda sem o programa MBUX de informação e entretenimento. Os controles no volante são confusos e numerosos, a lista de sistemas de auxílio à condução é pequena em se tratando de um novo modelo; as maçanetas internas das portas não poderiam ser mais difíceis de operar e as portas ficam muito próximas dos ocupantes.

Algumas coisas boas do passado permaneceram por aqui, como os botões internos do painel que travam os três diferenciais (o central agora tem relação variável e um tipo de embreagem multidisco), os ganchos manuais de apoio mais robustos do mundo e o mais barulhento sistema central de travamento. Os bancos traseiros não são enormes, mas bem confortáveis e podem ser rebatidos individualmente.

Os carros do teste de hoje são genuinamente capazes numa variedade de terrenos, afinal, um número significativo de seus compradores vivem próximos a desertos ou trafegam por grandes extensões de terra. Com a suspensão pneumática ajustada em seu ponto mais alto, amortecedores em programa Soft e o controle de estabilidade em Corsa, o Lamborghini é o rei das estradas de terra, mesmo que ele tenha que ser levado à revisão a cada 1.500 km.

Quando colocado em confronto com obstáculos e riachos, o Range Rover faz jus à sua reputação. Desempenha um trabalho perfeito de amortecimento, isolação e interferência com o terreno que enfrenta. Não se trata apenas de um talento único, mas sim de um conjunto de virtudes e habilidades. Sua alma dinâmica se faz presente na dirigibilidade, e esta dirigibilidade é agora mais concisa e linear do que antes. Mesmo com várias opções de programas, a Auto entrega um belo equilíbrio. Com uma tocada inspirada e vívida, o Range Rover nunca parece enfadonho.

A única condição em que o G63 se sente em desvantagem é sobre terrenos arenosos, pois sente falta de um chassi com altura ajustável. Porém, com grande curso de suspensão e articulação das rodas, aliado ao sistema de tração integral com caixa de transferência com reduzida e altura do solo suficiente para vencer a maioria dos obstáculos, o Mercedes impera sobre pedras.

Na estrada quem impera é o Lamborghini. E não se trata apenas de aceleração e velocidade máxima, mas de dirigibilidade, freios e direção. Com o programa Corsa selecionado no carro e ‘velocidade’ no seu cérebro, o Lambo não cansa de surpreender seu condutor e chocar os outros usuários da estrada. Você freia forte absurdamente tarde mantendo a confiança de que os pneus não perderão a aderência. E mesmo durante a freada, começar a contornar a curva não oferece nenhum risco. Sim, há algum subesterço, mas nada que uma pequena correção ao volante e pedal do acelerador não possa corrigir.

O Urus praticamente manda na estrada entre 200 e 305 km/h. O sexto sentido incorporado ao pedal do acelerador, a resposta instantânea das turbinas e a transmissão ‘telepática’ de oito marchas permitem que os 86,6 kgfm de torque fluam pelos eixos como uma explosão nuclear. Verdade que o Audi SQ7 tinha mais torque, mas em termos de impactos e efeitos, mesmo o interessante Jeep Grand Cherokee Trackhawk de 700 cv ficaria em segundo lugar. Na estrada, o Urus é meros 16 km/h mais lento que o Huracán, que bate seu irmão de cinco portas por míseros 0.2 s no 0 a 100 km/h (3.4 s contra 3.6 s).

O Range Rover é totalmente diferente. Silencioso, macio, mas com fôlego suficiente para entrar no jogo. Apenas próximo do Urus é que ele parece inexpressivo. Seu caráter é desprovido de extremos e excessos, ele simplesmente faz seu trabalho, e muito bem. Ergonomicamente se equivale aos rivais, trazendo também um bom número de programas de assistência. O motor supercharged jamais será um exemplo de eficiência e refinamento, mas sua entrega progressiva de torque justifica o S de SUV. Viajar na faixa vermelha do conta-giros é tão calmo quanto na verde dos rivais, gerando uma experiência calma e recompensadora. O Urus e o G63 são capazes de sumir no horizonte bem mais rápidos, mas ambos parecem agitados e nervosos. O condutor do Range Rover os deixaria sumir à frente, não por ser mais lento, mas porque o carro encoraja a uma abordagem mais tranquila. O Range Rover precisa de 5.4 s para ir de 0 a 100 km/h, com máxima de 250 km/h, se necessário. Mas ele se propõe a ser um viajante de altas velocidades médias, graças a seu refinamento e conforto.

Em teoria, o Range Rover tem o pior consumo, com 8,5 km/l, seguido de perto do Mercedes (9 km/l) e do Lamborghini (9,3 km/l). Numa Autobahn alemã vazia, o G63 é menos econômico, fazendo 3 km/l nessa situação.

O AMG é, do seu jeito, tão extravagante quanto o Lamborghini nas trocas insanas de marcha e ronco do motor. Estabilidade direcional, que depende da qualidade da estrada, contribui para seu comportamento radical. Seu centro de gravidade alto impõe um desafio aos amortecedores adaptativos, às vezes exigindo-os ao extremo. Geneticamente é um carro rápido que pode até superar um S600 V12. Até 180 km/h, sua resposta nunca deixa de surpreender. Mesmo nessa velocidade, se você pisar fundo no acelerador, o ‘kickdown’ da caixa de nove velocidades reduzirá duas ou três marchas, mantendo o desempenho numa faixa sempre satisfatória. Como todo AMG, o G tem marcha lenta irrequieta e berra alto, principalmente quando próximo dos 7.000 rpm. Registrando 78 dB, ele é 8 dB mais barulhento que o Range Rover a 160 km/h. É ruidoso, mesmo quando comparado ao Lambo.

Os três super SUVs entregam desempenho de forma completamente diferente. Se você quiser um SUV com alma de esportivo, escolha o Lamborghini. Se você gosta de linhas ‘retrô’ e gosta da cultura Vintage, mas faz questão de uma engenharia moderna, sua escolha será o Classe G. O Range Rover é a versão SUV de um GT luxuoso. Menos ostensivo que um Bentayga ou um Cullinan, ele é um viajante à moda antiga cheio de classe. E de quebra, inventou o segmento e ainda é responsável por uma boa fatia dele. O Range Rover é bom na cidade, campo e estrada. Se você procura o maior equilíbrio possível e o melhor preço, o seu SUV virá da fábrica de Solihull, onde é montado o Range Rover.
Mas ele ficou parado no tempo por um bom período e isso pesa. Sua direção e freios poderiam ser melhores e em vários momentos foi implacavelmente superado pela forma com que o Lamborghini e o Mercedes combinaram competência, idiossincrasia e excitação.

Mercedes-AMG G63
>Preço na Europa R$ 700 mil
>Motor V8 biturbo 3.982 cc 32V
>Transmissão 9 marchas automático, tração integral
>Suspensão Triângulos duplos dianteiros; Five-Link com eixo rígido e barra Panhard traseira
>Feito de Aço, alumínio

Lamborghini Urus
>Preço na Europa R$ 805 mil
>Motor V8 biturbo 3.996 cc 32V
>Transmissão 8 marchas automático, tração integral
>Suspensão Multi-Link dianteira e traseira, molas pneumáticas
>Feito de Alumínio, compósitos

Range Rover 5.0 V8 Autobiography
>Preço na Europa R$ 535 mil
>Motor V8 supercharged 5.000 cc 32V
>Transmissão 8 marchas automático, tração integral
>Suspensão Triângulos duplos dianteiros, Multi-Link traseiro, molas pneumáticas
>Feito de Alumínio

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