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O túnel de vento em tempo pandêmico

A temporada 2020 da Fórmula 1 está parada no tempo, assim como o mundo inteiro esperando o novo coronavírus passar. A pandemia de proporções mundiais deixou a F1 em um paradoxo sem precedentes. Quando a F1 voltar, Lewis Hamilton terá uma ótima chance para superar Michael Schumacher, o maior da história. Texto: Luca Bassani | Fotos: Beto Issa, Duda Bairros e Agência WRi2

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Novos tempos novos ventos. A Fórmula 1 aguarda a solução da pandemia do Covid-19 para iniciar a sua temporada #71. Nunca a categoria passou por um teste tão extremo, já que oficialmente a F1 nasceu em 1950, após a Segunda Guerra Mundial. Concluídos os seis dias de testes de pré temporada 2020 em Barcelona, e em meio ao crescimento da contaminação na Europa, o circo desembarcou na Austrália, para realizar a sua primeira etapa em Melbourne. Porém com um funcionário da McLaren diagnosticado positivo para o novo coronavírus e várias suspeitas em outras equipes, o GP foi cancelado na quinta feira anterior a prova. A partir de Melbourne e com a pandemia crescendo vertiginosamente no mundo os eventos foram caindo como dominó. Não é possível realizar um evento esportivo com tamanha logística global no cenário atual. Na sequência do GP da Austrália 2020, foram cancelados em definitivo os GP do Bahrein e o GP de Mônaco. A não realização da prova mais charmosa da temporada nas ruas de Monte Carlo foi mais um golpe duro para a categoria, porém uma decisão muito lúcida do Automóvel Clube de Mônaco, já que um adiamento era inviável para a agenda do Principado. Os GPs da China, Vietnam, Holanda, Espanha e Azerbaijão foram adiados e aguardam um novo calendário proposto pela FIA, que só deverá se pronunciar no início de maio.

Talvez a melhor chance no momento será iniciar a temporada 2020 no GP da Áustria no Red Bull Ring marcado para 5 de Julho no início do verão europeu. O circuito austríaco em Spielberg fica isolado de grandes centros e tem boa estrutura para a Fórmula 1 correr de portas fechadas. Tudo vai depender da evolução da pandemia no continente europeu. O que sabemos no momento é que as tradicionais férias da F1 em Agosto já estão correndo agora durante o confinamento. Provavelmente nesse ano de 2020 a categoria só conseguirá realizar de 15 a 18 corridas entre os 22 programadas. A volta do GP da Holanda em Zandvoort e o GP inaugural do Vietnam terão certa prioridade para a remarcação das datas. O desafio da Fórmula 1 é alinhar-se à nova realidade mundial, salvar o maior número de eventos na temporada 2020, sem desafiar às determinações da OMS, Organização Mundial da Saúde. Para se adequar ao momento histórico sem precedentes a categoria decidiu que o atual regulamento da F1 para 2020 permanecerá por mais uma temporada, e que as mudanças radicais previstas para 2021 serão transferidas para 2022. Como os projetos de 2021 já estavam em andamento, a categoria decidiu manter os modelos de 2020 também para 2021, e assim reduzir os custos em meio à crise. Algumas adaptações serão permitidas entre as duas temporadas, como no caso da equipe McLaren, que terá os motores Renault em 2020 e Mercedes em 2021. Esse uso de um modelo em duas temporadas é também inédito nas últimas décadas: o regulamento do Mundial de Construtores de Fórmula 1 exige um chassis novo de cada equipe a cada ano.

Quando a Fórmula 1 retornar em 2020, Lewis Hamilton terá a chance de superar Michael Schumacher

O domínio da Mercedes nos últimos campeonatos, com seis títulos consecutivos entre os construtores, e cinco títulos para Michael Schumacher e um para Nico Rosberg entre os pilotos, deverá manter-se por mais dois anos. Como as mudanças para 2022 serão muitas, podemos imaginar um realinhamento de forças no grid na ordem das equipes. Então com o regulamento atual Lewis Hamilton teoricamente terá uma bala de prata na agulha, para tentar superar os sete títulos de Michael Schumacher, em duas temporadas com o mesmo modelo. O inglês já tem seis títulos, cinco com as flechas prateadas alemãs e um com os compatriotas ingleses da McLaren, aquele de 2008 quando Felipe Massa venceu em Interlagos e ficou campeão do mundo por trinta segundos. Hamilton, depois de superar o recorde de pole positions do alemão ainda em 2018, e já com 84 vitórias na carreira terá também a chance em 2020 de superar os 91 triunfos de Schumacher na F1, algo inimaginável anos atrás.

Os novos carros, agora só para 2022 serão robustos com uma linha até futurista. A arquitetura principal dos bólidos atuais permanecerá, mas toda a parte de apêndices aerodinâmicos serão banidos, com as asas dianteiras e traseiras mais integradas ao monocoque. O objetivo é aumentar o número de ultrapassagens e fazer que os carros de Fórmula 1 andem mais próximos. Atualmente os carros da F1 precisam de ‘ar limpo’ para gerar downforce, que é a pressão aerodinâmica que gera maior aderência nas curvas. Perseguir um outro carro próximo na pista é impossível no regulamento de hoje quando os bólidos perdem cerca de 50% da eficiência do downforce e as ultrapassagens ocorrem na sua maioria pelo dispositivo da asa móvel. A partir do recente anúncio da proibição do uso de túnel de vento visando a redução de custos, o desenvolvimento dos novos carros serão feitos por simulações em programas de computadores, um desafio ainda maior para os projetistas e engenheiros das equipes. Também os novos pneus da Pirelli, com perfis mais baixos com rodas de aro 18 polegadas e não mais 13 atuais, esperarão 2022 para estrear.

Os boxes fechados em Melbourne, funcionário da McLaren foi o primeiro a testar positivo para o Covid-19

Como CAR Magazine antecipou na sua edição 98, a Fórmula 1 já iria passar por um grande stress financeiro em 2020, causado pelo impacto das mudanças radicais do novo regulamento previsto para 2021, quando as equipes de F1 terão um teto orçamentário no valor de US$ 175 milhões (cerca de R$ 730 milhões) por temporada, um corte de mais de 35% do orçamento padrão atual das equipes de ponta. Segundo alguns chefes de equipes o desenvolvimento sem restrições no momento faria a F1 passar em 2020 pela temporada mais cara de sua história, subsidiando sem limites os caríssimos projetos dos novos carros. Agora com a extensão do uso dos modelos de 2020 para a temporada de 2021, e o impacto causado pelo Novo coronavírus, os orçamentos serão reavaliados. Então de certa forma a pandemia ajudou a economia da categoria.

Enquanto a Fórmula 1 não inicia a temporada 2020, os 6 dias de testes dos novos modelos em Barcelona em fevereiro, podem indicar o que está por vir. Nos últimos anos nem sempre a equipe que liderou a tabela dos tempos nos testes mostrou a mesma eficiência nas provas. Durante os testes cada time segue o seu programa entre simulações de corridas e voltas rápidas. Neste primeiro encontro no circuito da Catalunya a maior novidade foi o equilíbrio entre as equipes intermediárias. Destaque para o excelente rendimento da Racing Point, apelidada de Mercedes Rosa e o boa recuperação da tradicional equipe Williams. Entre as equipes principais Mercedes, Ferrari e Red Bull a ordem de forças da temporada anterior parece mantida. A hegemonia dos alemães da Mercedes deverá continuar auxiliada por um sistema revolucionário chamado DAS, do inglês ¨Dual Axis Steering ¨ um sistema que envolve a coluna de direção com duas configurações de suspenção e cambagens. O sistema atua alterando o posicionamento do volante, dependendo de retas ou curvas, e é visível até na câmera onboard. Reclamado por várias equipes a FIA já deu o aval para a temporada corrente, porém avisou que o sistema não será aceito no novo regulamento para 2022, que prevê restrições nas suspensões para a contenção de custos. As outras equipes estão no momento aproveitando as férias forçadas do Covid-19 para introduzir a novidade para o meio da temporada, ou até no seu início, já que a Ferrari divulgou que só teria o sistema em meados de julho.

O duelo entre Sebastian Vettel e Charles Leclerc pela supremacia dentro da Scuderia Ferrari não tem data marcada, mas será inevitável. Outro postulante ao título de campeão mundial de 2020 é o excelente Max Verstappen da Red Bull, que conta com a evolução dos motores Honda, porém terá que ser além de arrojado e vitorioso, mais regular. A Renault deverá evoluir nas mãos do competente Daniel Ricciardo e terá também o jovem francês Esteban Ocon, que volta ao grid de titulares, depois de um ano como reserva na Mercedes. A temporada 2020 da Fórmula 1 tinha, ou terá ingredientes para ser uma das melhores da história. Os roteiristas da boa série da NETFLIX, ¨Drive to survive¨, jamais imaginariam o contexto da F1 neste início de 2020 para a sua terceira temporada. Também a F1 ficará marcada pelo Novo coronavírus em seu DNA para sempre, assim como as cepas dos vinhedos da Europa ficaram marcados pela praga de proporções bíblicas da Filoxera em1863. Jamais existirá um F1 2021 original para os fanáticos colecionadores.

O GP de Mônaco não acontecerá pela primeira vez depois de 66 anos. Tudo o que sempre foi tradicional no circo da F1, será circunstancial em 2020 e no momento imprevisível. Já se cogita terminar a temporada 2020 da categoria no início de 2021. Ainda em março uma força tarefa com as sete equipes com sede na Inglaterra foi criada para projetar e produzir respiradores para o tratamento do Covid-19. O projeto chamado de Pitlane terá os melhores engenheiros mecânicos do mundo criando com a visão hightech da categoria o equipamento que o mundo agora precisa. O confinamento em casa sem as corridas da F1 é desacostumante, como diria Nelson Piquet. Porém absolutamente necessário para atrasar o gráfico do contágio e minorar os óbitos. A vida continua e quando a pandemia passar, a Fórmula 1 2020 irá fazer muito barulho no planeta.

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