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Os 30 segundos mais longos e aterrorizantes dos últimos tempos e as reflexões que ficam

Acidente envolvendo Romain Grosjean, que nasceu de novo, certamente provocará mudanças ne segurança envolvendo carros, equipamentos e pistas.

RaceCar

Foram 30 segundos agoniantes para Romain Grosjean. Para quem viu pela televisão, foram ao menos dois minutos de horror e incertezas. Quanto mais o diretor de imagens demorava para colocar no ar as imagens do local da batida, mais era a certeza geral de que o piloto francês da Haas tinha ido dessa para melhor após seu carro explodir em chamas na terceira curva do circuito de Sakhir.

Durante longos minutos, essa era a única coisa que a gente sabia, que o carro escapou, bateu e explodiu. Quando as coisas ficaram mais calmas, principalmente por voltarem às imagens do local mostrando Grosjean bem, o cenário que sobrara foi ainda mais chocante: o carro se dividiu em dois, rasgou o guard rail no meio e a célula de sobrevivência ficou enroscada nas lâminas da barreira de proteção junto com o tanque de combustível, que foi fatiado no acidente e provocou a explosão.

O tanque de combustível fica acoplado à célula de sobrevivência por esta ser a parte do carro mais segura. Mas ninguém contava que o guard rail serviria como uma faca amolada ao perfurar o tanque e gerar a explosão. É algo parecido com o acidente de rali que deixou Robert Kubica por meses no hospital, acabou com sua primeira passagem na F1 e deixou sequelas que nunca foram consertadas em seu braço direito.

De acordo com o engenheiro Fábio Beretta, piloto de testes da Pirelli no Brasil e que também trabalha com equipes do automobilismo brasileiro, podia ser algo bem mais chocante. “Assim como o guard rail fatiou o tanque, ele podia ter feito o mesmo com o cockpit e com Grosjean, pois as duas partes fazem parte da mesma composição que, em teoria, é a parte mais segura dos carros. Talvez a solução mais simples e efetiva seria ter uma barreira de pneus ali.”

Já outro engenheiro, Eduardo Bassani, comentou que, se fosse uma pancada seca no muro, talvez teria sido pior. “O muro, ao contrário do guard rail, não ajudaria a absorver o impacto, que foi muito forte, e poderia ter causado sérios ferimentos ao francês. Se acontecesse o mesmo cenário com fogo, talvez seria ainda mais complicado.”

No entanto, o que os dois concordam é que, não fosse a proteção do cockpit, mais conhecida como halo, Grosjean dificilmente teria saído dessa. A presença do Halo que impediu que, no rasgo do guard rail, o piloto fosse decapitado – e, de quebra, deu a ele o espaço mínimo entre os ferros retorcidos para poder se salvar. E o fato de ter acontecido na volta de abertura, com os carros médicos de segurança escoltando ao fundo e chegando rápido também foi fundamental, pois eles apontaram os extintores direto para o cockpit quando viram Grosjean se batendo para sair. E isso poupou o francês de ferimentos maiores, como inalação de fumaça tóxica, que poderia fazê-lo desmaiar. Nesta parte, todo o crédito do mundo à valentia e coragem do piloto do carro médico, Alan Van der Merwe, que teve tempo de orientar o comissário atordoado a focar o extintor no lugar certo e foi valente, corajoso e todos os adjetivos similares ao enfrentar o fogo para ajudar o colega piloto.

Fazia tempo que a Fórmula 1 não tinha um sério incidente envolvendo fogo – até pelo fato de ela estar cada vez mais híbrida e com os carros carregando apenas 100kg de gasolina. Tirando alguns incêndios de pit stops como os de Jos Verstappen em 1994, Eddie Irvine em 1995 e Michael Schumacher em 2003, o mais sério havia sido o de Gerhard Berger na Tamburello em 1989, cuja segurança já havia sido melhorada após o acidente fatal de Ricardo Paletti em 1982 no Canadá.

Os mais velhos provavelmente tiveram a lembrança imediata dos acidentes de Roger Williamson, Ronnie Peterson (o mais parecido em termos de imagens) e Niki Lauda nos anos 70, quando o fogo era o maior inimigo do automobilismo. Mas nenhum deles, e nem nós, poderíamos imaginar que Grosjean sairia dessa apenas com queimaduras nas mãos, meio capacete chamuscado e uma sapatilha a menos no uniforme.

E não adianta quantas vezes a gente assistir o acidente, dá agonia igual – inclusive discordo de Daniel Ricciardo, que classificou como nojenta a reprodução incansável do acidente – na verdade a equipe de TV teve mais respeito que qualquer outra coisa. E, no mundo de hoje, ele que nos desculpe, mas o acidente viralizaria de qualquer forma, com ou sem replay. Só a imagem inicial, que lembra muito o acidente de Ronnie Peterson, é o suficiente.

O importante é que, assim como o último grande acidente fatal, de Jules Bianchi, que levou à criação do Halo, as lições deixadas por esse acidente serão assimiladas até a última fibra queimada do carro da Haas e, certamente, novas evoluções virão. Sejam elas no carro (como maior reforço e estudo da célula de sobrevivência), no uniforme (melhorar a resistência e criar luvas antichama muito mais eficientes) ou nos autódromos (o quanto os guard rails em sua concepção atual ainda cabem em circuitos modernos – dilema parecido com o dos alambrados nos circuitos ovais dos EUA).

E não tem nem o que discutir: a agonia da falta de imagens após a explosão, seguida do choque da brutalidade em ver o tamanho do estrago e do alívio por não ter acontecido o pior fazem desse o maior momento de 2020 no esporte. Até tudo o que Lewis Hamilton fez este ano ficará em segundo plano. Grosjean pode ter encerrado sua carreira na F1 em Sakhir, mas ganhou uma nota data de nascimento: 29/11/2020.
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